DISORDER | O pós-punk imortal do Joy Division desde 1979

Disorder é a primeira faixa do primeiro disco do Joy Division, o Unknown Pleasures, lançado em 1979.

E é até hoje uma muralha sonora psicológica quase intransponível para todos os músicos de rock pós-punk. Suas letras, arranjo e harmonia podem ser percebidos em praticamente todos os trabalhos posteriores do gênero realizados por artistas da área.

A Disorder começa impondo sua assinatura sonora logo nos primeiros segundos de música, numa bateria de entrada, um baixo em seguida e a guitarra para anteceder uma canção falando sobre as inseguranças de um homem em um possível encontro amoroso, tudo na voz de um cara de tons grave e rouco, e ao mesmo tempo intimista devido ao teor depressivo da letra, uma marca muito característica do Joy Division.

O disco tem um ritmo mutante que faz rodar depressão e harmonias sombrias punk rock em cima de temas urbanos como decadência e paranoia. Seria uma característica marcante do Joy Division, não apenas em Disorder, mas em todas as outras canções.

O tema de dores de amor em Disorder está desde sempre no universo da música, e é redesenhado pelos artistas desde que a primeira pessoa do mundo se interessou por outra, mas o Joy Division fez uma música marcante com essa, com toda certeza.

É só dar play e comprovar.

Disorder

I’ve been waiting for a guide to come and take me by the hand
Could these sensations make me feel the pleasures of a normal man?
Lose sensations, spare the insults, leave them for another day
I’ve got the spirit, lose the feeling
Take the shock away
It’s getting faster, moving faster now
It’s getting out of hand
On the tenth floor, down the back stairs
It’s a no man’s land
Lights are flashing, cars are crashing
Getting frequent now
I’ve got the spirit, lose the feeling
Let it out somehow
What means to you, what means to me
And we will meet again
I’m watching you, I’m watching
Oh I’ll take no pity from your friends
Who is right? Who can tell?
And who gives a damn right now?
Until the spirit new sensation takes hold
Then you know
Until the spirit new sensation takes hold
Then you know
Until the spirit new sensation takes hold
Then you know
I’ve got the spirit
But lose the feeling
I’ve got the spirit
But lose the feeling
Feeling, feeling, feeling, feeling, feeling, feeling, feeling

Disorder Joy Division
A letra de Disorder, do Joy Division

Unknown Pleasures, Disorder, Joy Division

Unknown Pleasures se tornou um marco.

Era a época do punk ainda metendo cotoveladas e botinadas, do pós-punk metido e inovador, do rock progressivo pedante e virtuoso e da pauleira desgraçada do heavy metal satânico no universo do rock n´roll, mas o Joy Division se fez notar com um trabalho fascinante que revolucionou a indústria da música.

Disorder Joy Division
Joy Division

A energética Disorder abre o disco e Interzone segue a mesma fórmula, e canções como She’s Lost Control (uma das mais famosas e queridas do público), Shadowplay (sobre uma Manchester paranóica) e New Dawn Fades (um hino da morte) se tornariam hits na Inglaterra.

As faixas contam com experimentações eletrônicas, uma bateria pesada e muitos riffs de guitarra, que dão outra atmosfera às letras dilacerantes que Curtis escrevia.

O Joy Division optou por não disponibilizar no encarte as letras das músicas em Unknown Pleasures.

Disorder Joy Division

O disco originalmente não tinha informação sobre qual seria o lado A ou B, mas no lançamento em CD convencionou-se que Disorder deveria ser a primeira faixa.

Na contracapa do LP, consta a frase “Isto não é um conceito, é um enigma.”

Lado A

1. Disorder (3:32)
2. Day of the Lords (4:49)
3. Candidate (3:05)
4. Insight ( 4:29)
5. New Dawn Fades (4:47)

Lado B

1. She’s Lost Control (3:57)
2. Shadowplay (3:55)
3. Wilderness (2:38)
4. Interzone (2:16)
5. I Remember Nothing (5:53)

The Doors, Velvet Underground, David Bowie, The Stooges, Sex Pistols e Siouxsie and the Banshees foram algumas das bandas que tiveram fortes influências no trabalho que os integrantes desenvolveram em Pleasures.

Interlude

O Joy Division começou no final dos anos 1970, na cidade industrial de Manchester, localizada ao norte da Inglaterra.

Depois de um show da banda britânica de punk rock Sex Pistols, em um local chamado Lesser Free Trade Hall, em Manchester, no dia 20 de junho de 1976, os amigos Bernard Dicken (também conhecido como Sumner), Peter Hook e Terry Mason decidiram que também queria ter uma banda de rock.

Na plateia, vários outros caras, que também queriam fazer suas bandas. Algumas delas seriam conhecidas como Buzzcocks, The Fall, Magazine, Duruti Column, Smiths e outros.

Bernard tinha uma guitarra, Hook arrumou um baixo e Terry teve que se virar para ser o baterista. Ian Curtis também estava neste show dos Pistols, acompanhado da esposa Deborah (eles se casaram em agosto de 1975), e ele acabou em contato com os três, e se tornou o vocalista.

Estava formada a banda Warsaw (Varsóvia, cidade que é capital da Polônia). A inspiração do nome veio na verdade da música Warszawa, presente no disco Low (1977), do músico inglês David Bowie.

Ian Curtis era o que tinha um gosto musical mais elástico e eclético do que os outros, trazendo influências, além do Bowie, dos trabalhos musicais de Lou Reed, Iggy Pop e Kraftwerk.

O jovem Ian também gostava de escritores como Dostoiévski (jornalista e filósofo russo do fim do século XVIII), William S. Burroughs (escritor, pintor e crítico social americano), J.G. Ballard (escritor inglês) e T.S. Eliot (poeta e dramaturgo inglês).

O Warsaw estreou abrindo um show dos Buzzcocks, no final de maio de 1977, no Electric Circus, um misto de galpão e night club, bastante importante na cena punk de Manchester.

No mesmo ano, os rapazes mudam o nome da banda para Joy Division a pedido de Curtis.

O nome, numa tradução livre, se chama “Divisão da Alegria”. Era o termo dado para uma área dos campos de concentração, onde os nazistas estupravam prisioneiras. Ian Curtis leu sobre isso no livro A Casa de Bonecas (1956, de Yehiel De-Nur).

Eles lançariam um EP com 4 canções: An Ideal For Living (1978), bancado pela gravadora RCA, um material que não chegou a ser posto no mercado, pois os caras rejeitaram a produção e os sintetizadores adicionados posteriormente à gravação.

Obviamente, seguindo as dinâmicas da indústria fonográfica, esse material tornou-se disponível em cópias piratas, e ficou conhecido simplesmente como Warsaw. A primeira faixa é uma música de mesmo nome, seguida de No Love Lost, Leaders of Men e Failures (of Modern Man). Todas eram algo mais punk do que viria a ser conhecido o Joy.

Terry acabou saindo, os caras tentaram outros, mas ninguém dava certo, até Steve Morris atender a um anúncio de jornal, e mostrar que a bateria poderia ser sua.

Não demora muito e a banda consegue aparecer na mídia com o lançamento do EP Factory Sample (1978), financiado por uma celebridade local da TV britânica, Tony Wilson, pela gravadora independente Factory (que era também dele), um lugar que também lançaria bandas como Duruti Column e Cabaret Voltaire.

O EP tem 2 músicas do Joy: Digital e Glass — outras 2 do Voltaire, mais 2 do Column e 3 do artista John Dowie. A Glass já se aproxima mais do que o Joy Division seria conhecido.

O sucesso no circuito de shows em cidades inglesas do norte deixou o Joy Division na mira das grandes gravadoras, mas seria a pequena Factory mesmo que lançaria a banda.

The Dawn of Joy

Disorder Joy Division
Ian Curtis

Quando o produtor Martin Hannett assumiu o trabalho de fazer o disco de estreia, decidiu deixar o Joy Division bem mais sombrio, denso e misterioso.

Hannet pegou a guitarra metal de Sumner, o baixo melódico de Hook e a bateria inventiva (acústica e eletrônica) de Morris e criou algo desconcertante. Sua mixagem punk rock misturou silêncios com cacos de vidro partindo, e a sinfonia musical do trio era orgânica com o vocal pra dentro e colado no microfone que Ian já fazia nas apresentações ao vivo.

Disorder Joy Division
Ian Curtis

Inicialmente, a Factory deu à banda britânica £ 5 mil para fazer o disco. Depois de ouvirem o trabalho preliminar, em 5 dias o valor foi mais que dobrado: £ 12 mil. A gravação foi feita no Stockport’s Strawberry Studios em abril de 1979.

Martin deixava o ar condicionado do estúdio em temperaturas congelantes, o que se refletiu na própria feitura do disco.

Ian Curtis gravava sua participação de primeira: ouvia apenas uma vez a música e não carregava as folhas com elas escritas.

A produção inseriu uma ambientação obscura e apocalíptica ao álbum“, disse Sumner. “Nós pintamos uma imagem em preto e branco, e Martin foi lá e coloriu por nós. Ficamos muito chateados“, teria dito à mídia especializada na época, em uma das pouquíssimas entrevistas do Joy Division para a imprensa especializada.

Joy Division

O ritmo denso, hipnótico e angustiante do Unknown Pleasures é conduzido por Ian e os músicos em andamentos lentos em uma sensação de claustrofobia que percorre todas as letras. Disorder é um dos melhores exemplos desse tipo de trabalho do Joy Division.

Nossas letras significam coisas completamente diferentes para cada pessoa. Você pode ouvir uma coisa, e a pessoa ao seu lado pode ouvir algo completamente diferente. Não queremos dizer nada. Não queremos influenciar as pessoas. Não queremos que saibam o que a gente pensa”

Peter Hook

Apesar da banda em geral renegar em um primeiro momento todo o trabalho de produção do disco, as apresentações ao vivo da acompanharam o mood sonoro.

Ian Curtis

Ian Curtis dançava de maneira maníaca. E inconscientemente somava à sua performance os ataques epiléticos que sofria. She’s Lost Control é sobre uma garota que sofria de epilepsia, assim como o próprio Curtis (descobriu-se depois que ela teve um ataque e morreu).

O primeiro single do Joy Division foi Transmission, uma música bastante conhecida na Inglaterra por conta de uma performance em um programa de TV da BBC2, o Something Else, que foi ao ar no dia 15 de setembro de 1979, a única apresentação da banda na TV, tirando outras 2 pequenas apresentações: o Joy tocou Shadowplay no programa Granada Reports em setembro de 1978, e em julho de 1979 tocaram She’s Lost Control no programa What’s On.

Pulsar Unknown Pleasures

A origem da imagem da capa do disco é incerta, no quesito de definir quem da banda a queria no álbum. De qualquer maneira, ela foi retirada da Enciclopédia de Ciências de Cambridge, e o projeto gráfico é creditado a Peter Saville.

A imagem representa a leitura de ondas de rádio emitidas pelo Pulsar CP 1919, um objeto cósmico que representa as reminiscências de uma estrela após ela entrar em colapso. São tão densas e com um campo magnético tão forte que emitem gigantescos jatos de partículas e radiação, enquanto giram muito rápido.

Em 2015, a Scientific American escreveu um artigo que buscou traçar a origem da arte. Essas “montanhas digitais” surgiram em 1970, nove anos antes do lançamento de Unknown Pleasures.

A pesquisa mostrou que a imagem foi criada pelo Radiotelescópio de Arecibo, construído em 1963 na cratera de um vulcão extinto em Porto Rico. O aparelho já ocupou a posição de maior radiotelescópio do mundo, com uma antena parabólica de 305 metros de diâmetro.

A geração de dados posteriormente foi transcrita em forma de gráficos, o que deu origem à imagem propriamente dita.

O dr. Harold D. Craft Jr. publicou-a em 1970 como parte da sua tese de PhD intitulada Radio Observations of the Pulse Profiles and Dispersion Measures of Twelve Pulsars, e que acabou sendo republicada em algum momento pela enciclopédia.

Close

O segundo disco, Closer (1980), conseguiu o impossível e teve mais sucesso ainda. Quando o single Love Will Tear Us Apart saiu em maio, a banda alcançou pela primeira vez o Top 20 britânico.

O disco foi gravado em uma abóbada de estuque, especialmente construída para produzir a ressonância de uma capela, obtendo assim uma sonoridade sintetizada com a voz colada de Ian no microfone.

Muitas músicas marcantes, como Isolation, Passover, Heart and Soul, Twenty Four Hours, The Eternal e Decades.

Mas os problemas de saúde de Ian levaram a seguidos cancelamentos de shows da turnê.

Os efeitos da epilepsia, o uso cada vez mais frequente e pesado de drogas para controlar a doença, um divórcio conturbado aliado a um caso extraconjugal com a jornalista belga Annik Honoré, e uma depressão da soma de tudo isso, são alguns dos fatores que podem ser considerados para a decisão fatídica do jovem Ian Curtis cometer suicídio, ao se enforcar com uma corda de varal em sua casa, no dia 18 de maio de 1980.

Ele tinha apenas 23 anos de idade.

Se matou um dia antes da viagem do Joy Division programada para os Estados Unidos, naquela que seria a primeira turnê internacional da banda.

Curtis nunca chegou a ver o sucesso que desejava para o grupo.

As composições de Closer viriam a influenciar praticamente todo o pós-punk. Várias bandas beberiam da sonoridade do Closer, como Editors, Plus Ultra, Interpol e Franz Ferdinand, She Wants Revenge, The Killers (Shadowplay é uma faixa do disco Sawdust), além de serem celebrados por outros artistas do calibre de Trent Reznor (o “Homem-Nine Inch Nails), Thom Yorke, do Radiohead e Billy Corgan, dos Smashing Pumpkins.

New Order

New Order

Com a morte de Ian, os remanescentes do Joy Division, tentam seguir em frente e recrutam a tecladista Gilliam Gilbert para tentar continuar como artistas de música.

Das cinzas do Joy Division, Peter Hook pegou a sonoridade que a banda de música eletrônica Kraftwerk fazia, e criou uma nova proposta de continuidade sonora nos escombros do que foi o Division.

Isso ajudou a diferenciar o trabalho dos músicos na era pós-Ian, essa nova banda, agora chamada New Order, com uma identidade própria, provou que teria seu próprio toque de genialidade.

Ian era um catalisador para todos nós. Ele consolidava nossas idéias. Nós compunhamos toda a música, mas Ian nos dirigia.”
Peter Hook

Peter Hook
Ian Curtis

+ Joy Division

O lançamento do álbum Still (1981), com sobras de estúdio e a gravação do último show do Joy Division, aumentou ainda mais o mito em torno da banda, e é o único material que de fato contém algo mais dos caras.

Discografia

An Ideal For Living (EP, 1978)
Unknown Pleasures (1979)
Closer (1980)
Still (1981)
Divine (coletânea de 1988)
1977 –1980 Substance (coletânea de 1988)
The Complete Peel Sessions (1991)
Permanent (coletânea de 1995)
Heart And Soul (um box set em CD de 1997)

O tema suicídio já estava ao redor de Ian, como podemos ver em In a Lonely Place, canção de Ian, que não foi aproveitada pelo Joy, mas que saiu no álbum duplo Substance (1987), coletânea do New Order.

O filme-documentário-comédia 24 Hour Party People (2002), de Michael Winterbottom, conta a história da pequena gravadora Factory, que além do Joy Division, lançou e trabalhou com muitas outras bandas da cena inglesa de rock. O filme de Winterbottom tem várias cenas dos caras do Joy e do New Order.

Você pode saber mais da história do Joy Division no livro Touching from a Distance: Ian Curtis and Joy Division, lançado em 1995 por Deborah Curtis, exatamente sobre seu conturbado relacionamento com Ian Curtis.

O livro de Deborah serviu de base para o filme Control (2007), de Anton Corbijn. A trama narra a história de Ian na pré e pós-formação do Joy Division, até os fatídicos eventos que culminam na morte do rapaz.

Deborah foi co-produtora do longa, e ela foi interpretada no filme por Samantha Morton. O ator Sam Reilly faz Ian Curtis. Foi o filme de estreia de Anton, que fotografou muitos shows do Joy Division no início da carreira, e claro, Disorder, a primeira música, tem grande importância no filme.

Nós fazemos música para nós mesmos, más esperamos que ainda assim outras pessoas gostem dela”.

Ian Curtis

Disorder Joy Division
Joy Division

/ FIRSTLINER. Essa é a seção colaborativa do blog onde a primeira faixa de uma artista ou banda é comentada. Disorder, do Joy Division, é uma de muitas, como a Black Sabbath, do Black Sabbath, Welcome to The Jungle, do Guns N´Roses, Red Morning Light, do Kings of Leon, e Its is Not Meant to Be, do Tame Impala.

Outros textos de outras músicas foram produzidas por amigos, como a Paula Valelongo, que fez Untitled, do Interpol; o Jota Abreu fez Sonífera Ilha, dos Titãs; e o Erick Rodrigues que fez A Banda, do Chico Buarque.

INTERPOL | Untitled, a faixa “sem título” de abertura de Turn on the bright lights

curadoria e textos: tomrocha (twitter e instagram)
jornalista, estrategista de conteúdo e escrevedor de coisas escritas.

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Disorder Joy Division

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reservados aos seus respectivos proprietários, e são
reproduzidas aqui a título de ilustração

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