Imagine um filme que começa no futuro, na Nova Los Angeles de 2031, mas que parece vir de um passado em que o futuro era feito de luzes piscando, carros de design italiano e laboratórios com tubos coloridos que prometiam a destruição do mundo. Imagine, então, que esse mesmo filme, depois de cinco minutos de feixes de partículas e falas pseudo-científicas, decide que a melhor coisa a fazer é mandar John Hurt direto para o ano de 1817. Isso é Frankenstein Unbound (1990), lançado no Brasil como Frankenstein — O Monstro das Trevas, um filme onde o tempo colide, o gótico abraça o neon, e Roger Corman, uma lenda do cinema, depois de duas décadas afastado da direção, volta para nos lembrar que o barato pode ser, sim, profundamente filosófico.
A premissa é uma mistura ousada de viagem no tempo e uma metaficção que envolve a autora de Frankenstein.
A história se passa em 2031, em Los Angeles. Um cientista, Dr. Joseph Buchanan (om papel de Hurt), testa uma nova arma de energia (“os raios de partículas”) que, acidentalmente, abre rasgos no tempo e no espaço. Ele é lançado de volta ao ano de 1817, na Suíça, especificamente para a região do Lago Genebra.
Lá, ele se depara com três figuras históricas reais: Mary Shelley (Bridget Fonda) – que está justamente escrevendo seu livro Frankenstein; Percy Bysshe Shelley (Michael Hutchence), seu marido e futuro poeta consagrado; e Lord Byron (Jason Patric), seu anfitrião. Para sua surpresa, Buchanan descobre que as criaturas da ficção de Mary são reais: ele encontra o Dr. Victor Frankenstein (Raul Julia) e sua Criatura (Nick Brimble) vivendo os eventos trágicos do romance original. Buchanan, então, se vê preso no passado e forçado a intervir no conflito entre Frankenstein e sua criação, enquanto tenta encontrar um caminho de volta para o futuro.

O que o filme de Corman oferece é uma fusão de gêneros sci-fi e horror gótico. Esta é a característica mais distintiva do filme Frankenstein — O Monstro das Trevas. Ele não é apenas uma adaptação de Frankenstein; é uma história de viagem no tempo onde o futuro (high-tech e distópico) colide com o passado (gótico e romântico). Roger Corman tenta unir seus dois amores: a ficção científica e o horror gótico, com uma busca por identidade, o desejo de poder, a luta contra a solidão e a necessidade de conexão.

A história, adaptada do romance homônimo de Brian Aldiss (1973), começa com o Dr. Buchanan, um cientista que cria a arma definitiva — a “partícula do juízo final” — e acidentalmente abre um rasgo no tecido do tempo. Junto de seu carro futurista (um Italdesign Aztec, peça de fetiche automobilístico dos anos 80), ele é sugado para a Suíça de 1817. Lá, ele encontra ninguém menos que Victor Frankenstein (Raul Julia, em estado febril de elegância), Mary Shelley (Bridget Fonda, no auge de sua beleza etérea), Lord Byron (Jason Patric), Percy Shelley (Michael Hutchence, sim, o vocalista do INXS) e, claro, a Criatura (Nick Brimble, coberto de cicatrizes e tragédia). O filme, então, torna-se uma espécie de fanfic filosófica, onde ciência e literatura colidem em um labirinto de culpa e criação.


Corman e Aldiss, um diretor e um escritor separados por gerações, mas unidos por um tipo de ironia fatalista, constroem um enredo onde a ficção cria a realidade e vice-versa. Buchanan chega do futuro com um exemplar do romance Frankenstein e o entrega a Mary Shelley, que ainda o está escrevendo. O que ela lê é sua própria vida, seu próprio trauma, seu próprio destino. A autora se vê aprisionada pela narrativa que a consagrará. A ficção torna-se profecia. O monstro, ao matar Elizabeth (Catherine Rabett), força Frankenstein e Buchanan a reconhecerem o mesmo pecado original: a arrogância do criador diante da criatura. É, afinal, o mesmo erro que separa o cientista iluminista do século XIX do engenheiro nuclear do século XXI.

A ironia maior — e talvez o coração trágico de Frankenstein — O Monstro das Trevas — é que Buchanan, um homem da tecnologia e da razão, acaba sendo enforcado por uma multidão supersticiosa. O progresso, para Corman, é um ciclo de repetições sangrentas. O monstro o salva, mas apenas para arrastá-lo de volta ao inferno da criação. Frankenstein precisa da energia do carro futurista para dar vida à sua nova companheira. Buchanan, impotente, é forçado a assistir à repetição de seu próprio erro: a tentativa de dominar forças que transcendem o humano.
Frankenstein — O Monstro das Trevas explora a questão: “E se o monstro sobre o qual você está escrevendo fosse real?” Buchanan fica chocado ao perceber que a história que ele conhece como ficção está se desenrolando diante de seus olhos.
O filme mantém os temas centrais do romance de Mary Shelley: a ética científica, a responsabilidade do criador para com sua criatura e a natureza da vida. No entanto, adiciona a questão da responsabilidade tecnológica (a arma de Buchanan que desencadeia tudo) e o paradoxo temporal.
Os efeitos, especialmente os relacionados à viagem no tempo e à arma de energia, são oitentistas típicos, com muito uso de luzes e lasers. Eles têm um charme datado, mas não deixam de ser interessantes. Os efeitos práticos da Criatura são eficazes.
O título é uma referência ao título completo do romance original de Mary Wollstonecraft Shelley (“Frankenstein; or, The Modern Prometheus“), de 1818, e ao drama lírico de Percy Bysshe Shelley, “Prometheus Unbound“.


E talvez o maior paradoxo de Frankenstein — O Monstro das Trevas seja este: um filme sobre a irresponsabilidade da criação feito por um homem que criou mais do que qualquer outro. Corman foi o Prometeu moderno do cinema industrial — roubou o fogo dos estúdios e o entregou aos jovens cineastas. Seu “monstro das trevas” é, em última instância, a própria indústria que ele alimentou: viva, mutante, voraz. O título — “Unbound”, “liberto” — é, no fundo, uma confissão. Frankenstein, o criador, e Corman, o produtor, compartilham o mesmo destino: libertar algo que não pode mais ser contido.
No fim, Frankenstein Unbound é menos um filme de terror do que uma elegia sobre o ato de criar, e o preço disso. É o epitáfio cinematográfico de um homem que fez do caos uma forma de arte, e do fracasso um estilo.
Frankenstein – O Monstro das Trevas
(Frankenstein Unbound, 1990, de Roger Corman)

Roger Corman dirigiu este filme a pedido da Twentieth Century-Fox, que decidiu que ter seu nome associado ao projeto ajudaria a vender o filme. Ironicamente, um dos primeiros empregos de Corman na indústria cinematográfica foi como leitor de histórias para a Fox. Ele pediu demissão com raiva depois que um roteiro que ele leu e deu notas foi transformado no filme O Matador (1950), do original The Gunfighter, com Gregory Peck, sem que nenhum crédito fosse dado a ele, mesmo que todas as suas anotações tenham sido usadas nas revisões do roteiro.
A atriz Myriam Cyr apareceu anteriormente em outro filme que apresentava Lord Byron, Mary e Percy Bysshe Shelley: Gótico (1986), de Ken Russel, diretor de Os Demônios (1971), Viagens Alucinantes (1980) e o filme musical Tommy (1986), do The Who. Ela também apareceu mais tarde em outro filme sobre a lenda de Frankenstein: Frankenstein: O Sonho Não Acabou (1996), de Robert Tinnel.
Nos bastidores, Frankenstein – O Monstro das Trevas marca o canto do cisne de Roger Corman — o lendário “rei dos filmes B” –, que não dirigia desde Águias em Duelo (1971). Corman havia produzido quase 500 filmes, revelando nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Ron Howard e Jack Nicholson.
Corman (1926-2024) nasceu em Detroit, Michigan, EUA, e seu nome foi muito conhecido em Hollywood. Era produtor e diretor e foi conhecido pelo seu trabalho em O Silêncio dos Inocentes (1991) e Apollo 13: Do Desastre ao Triunfo (1995). Dirigiu, além de Frankenstein, o Monstro das Trevas, o clássico cult trash Mercenários das Galáxias (1980), Esporte Mortal (1978), Os Anjos Selvagens (1966), A Orgia da Morte (1964), O Homem dos Olhos de Raio-X (1963), Terror no Castelo Von Leppe (1963), O Intruso (1962), A Loja dos Horrores (1960) e muitos outros.
Do outro lado da história está Brian Aldiss (1925–2017), o autor britânico que transformou a ficção científica em reflexão existencial. Aldiss foi vice-presidente da H.G. Wells Society e um dos primeiros escritores a entender que os monstros do futuro nascem das angústias do presente. Seu livro Frankenstein Unbound é uma resposta pós-nuclear à obra de Mary Shelley. Ele parte da pergunta: e se o monstro fosse o próprio futuro da humanidade? Aldiss também inspirou A.I. – Inteligência Artificial (2001), de Spielberg e Kubrick — baseada no conto Super-Toys Last All Summer Long, de 1969– o que faz de sua trajetória uma linha direta entre Shelley, Corman e o cinema contemporâneo — todos obcecados pela mesma ferida: a criação que se volta contra o criador.
Visualmente, o filme é uma colagem. As cenas futuristas são repletas de lasers e fumaça; as cenas de 1817 têm um romantismo de pintura suja. O contraste é o ponto: o século XXI de Corman é tão ilusório quanto o século XIX de Shelley. Os efeitos especiais — hoje datados — funcionam como metáforas involuntárias: a tecnologia falha, mas a ideia persiste. Há uma beleza anacrônica nisso, um charme de ruína que lembra que o cinema, como o monstro, é sempre uma tentativa de reanimar o morto.


Uma sequência, Dracula Unbound, foi planejada, mas não foi produzida devido ao baixo retorno financeiro do filme. Rumores sugerem que elementos desta sequência não realizada foram reciclados em Dracula Rising (1993), mais conhecido no Brasil como O Despertar de Drácula, também produzido por Roger Corman.
O uso de Frankenstein no cinema não era nem um pouco original em 1990. A primeira adaptação cinematográfica da obra de Mary Shelley foi Frankenstein, um curta de 1910, dirigido por J. Searle Dawley. Décadas depois surgiria a mais famosa e lembrada, Frankenstein, da Universal Pictures, em 1931, seguida do sucesso A Noiva de Frankenstein (1935), filmes que tiveram enorme impacto na cultura pop. Até outubro de 2025, havia 423 filmes conhecidos do personagem, mais 204 curtas, 78 séries de TV e outrras 287 versões televisivas que de alguma forma adaptam a obra de Mary Shelley. Uma das mais conhecidas é Frankenstein de Mary Shelley (1994), de Kennet Branagh.
FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY | Poder mítico do livro supera Kenneth Branagh
Raul Julia em
Frankenstein

Raul Julia entrega uma performance teatral, barroca, como se estivesse sempre à beira do colapso (e estava: morreria quatro anos depois, aos 54).
Raul Rafael Carlos Julia y Arcelay nasceu em San Juan, cidade de Porto Rico, em 9 de março de 1940. Era o mais novo de quatro irmãos.
O lado artístico veio de sua mãe, Olga, uma cantora mezzo-soprano, e sua gana de trabalho e atuação elétrica provavelmente vieram de seu pai, Raúl Juliá, um engenheiro elétrico (ele também foi pioneiro ao trazer a pizza para Porto Rico, além do frango frito).
A formação escolar de Raul se deu no Colegio San Ignacio de Loyola, de orientação católica-jesuíta. Desde cedo, o pequeno Raul Rafael demonstrava interesse pelas artes dramáticas.
E quando ficou grande — grande mesmo, com 1,87 de altura — se encantou com a performance do ator Orson Bean em uma boate noturna, o que fez tomar a decisão de estudar teatro na Universidade de Porto Rico.
Se mudou para Manhattan (NY), em 1964, e rapidamente encontrou trabalho em peças e shows da Broadway. E fora os seguidos trabalhos nos palcos lhe abriram as portas para o audiovisual gravado.
Seu talento com a voz também foi bem explorado, com ele cantando em 5 de seus filmes. Raul foi nomeado 4 vezes como Melhor Ator em Musical para o prêmio Tony Awards, o maior e mais prestigioso prêmio do teatro dos EUA, equivalente ao Oscar no cinema, Emmy na televisão e Grammy na música. Ganhou em 1972, por Two Gentlemen of Verona; Where’s Charley?, de 1975; pelo seu Macheath em The Threepenny Opera, de 1977; e Nine, de 1982.
Raul Julia adoeceu por conta de complicações de saúde, e ficou internado um tempo em Nova York, EUA. Ele estava lendo o roteiro de A Balada do Pistoleiro, filme de Robert Rodriguez, na cama de hospital, de onde tinha certeza que sairia.
Mas seu estado de saúde piorou. Ficou em coma por vários dias e faleceu no dia 24 de outubro de 1994, aos 54 anos de idade. Raul Julia teve funeral de estado em Porto Rico, onde foi sepultado com todas as honrarias.
Era apoiador ativo de The Hunger Project, uma fundação de combate à fome no mundo. Por 17 anos, Raul Julia serviu de porta-voz da fundação.

Raul era considerado um dos mais bem-sucedidos atores hispânicos nos EUA. Seu maior sucesso no cinema foi O Beijo da Mulher Aranha (1985), de Hector Babenco, onde contracenou com William Hurt (que ganhou o Oscar por sua atuação). No filme, baseado no livro homônimo do argentino Manuel Puig, Julia vive um prisioneiro político latino-americano que divide a cela com um gay, interpretado por Hurt.
Ele foi o único homem que ganhou o Emmy e o Globo de Ouro postumamente, ambos por Amazônia em Chamas, de 1994, um de seus últimos filmes, numa das melhores narrativas cinematográficas sobre o ativista ambiental brasileiro Chico Mendes, que teve um trabalho de enorme importância nos trabalhos dos seringueiros do Acre na Floresta Amazônica.
O Internet Movie Database dá 50 créditos de atuação de Raul Julia como ator em produções de cinema e filmes para a TV.
O imenso legado criativo de Raul Julia no cinema será resenhado numa Maratona Raul Julia, tal qual já fizemos por aqui com a atriz Jennifer Connelly, e traremos todas essas produções para cá.
/ A MARATONA CINEMATOGRÁFICA RAUL JULIA.
1 – Os Viciados (1971)
2 – Been Down So Long It Looks Like Up to Me (1971)
3 – A Organização (1971)
4 – Death Scream (1975)
5 – Uma Corrida de Loucos (1976)
6 – Os Olhos de Laura Mars (1978)
7 – Othello (1979)
8 – Uma Vida em Pecado (1979)
9 – Ripe Strawberries (1980)
10 – O Fundo do Coração (1981)
11 – Strong Medicine (1981)
12 – O Pequeno Mágico (1982)
13 – Tempestade (1982)
14 – O Beijo da Mulher-Aranha (1985)
15 – Posições Comprometedoras (1985)
16 – Mussolini (1985)
17 – La gran fiesta (1986)
18 – Fuga do Inferno (1986)
19 – A Manhã Seguinte (1986)
20 – Álamo – 13 Dias de Glória (1987)
21 – Tango Bar (1987)
22 – Onassis: The Richest Man in the World (1988)
23 – Corações Trocados (1988)
24 – O Penitente (1988)
25 – Luar sobre Parador (1988)
26 – Conspiração Tequila (1988)
27 – Romero (1989)
28 – O Príncipe dos Mendigos (1989)
29 – Acima de Qualquer Suspeita (1990)
30 – Frankenstein, o Monstro das Trevas (1990)
31 – Rookie: Um Profissional do Perigo (1990)
32 – Havana (1990)
33 – A Família Addams (1991)
34 – A Peste (1992)
35 – A Família Addams 2 (1993)
36 – Amazônia em Chamas (1994)
37 – Street Fighter – A Última Batalha (1994)
38 – Torturados (1995)
Obrigado por ler até aqui!
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