Há algo quase matemático em na forma como o cienasta Alan J. Pakula organiza o caos humano — como se o moralmente inclassificável pudesse caber em um enquadramento 1.85:1 –, e em Acima de Qualquer Suspeita (Presumed Innocent, 1990), o diretor, que antes havia transformado paranoias políticas em arquitetura visual em Os Homens do Presidente (1976), se debruça sobre outro tipo de sistema em colapso: o da justiça íntima. O filme começa como um thriller jurídico, mas o que Pakula constrói, frame a frame, é uma alegoria sobre o casamento, o desejo e o que acontece quando a verdade, como o amor, se torna uma questão de procedimento.

O promotor Rusty Sabich, interpretado com contenção cirúrgica por Harrison Ford, descobre que sua amante e colega Carolyn Polhemus (Greta Scacchi) foi brutalmente assassinada. Em poucos minutos, o filme muda de registro — do factual para o claustrofóbico — e o homem da lei se torna o homem sob julgamento. Ford sai de seu papel habitual de herói ação para entregar uma performance intensa e vulnerável. Ele se move devagar, como se cada gesto pudesse ser usado como prova. É o anti-Han Solo, o anti-Indiana Jones — e talvez por isso, um dos papéis mais humanos de sua carreira.

O elenco de peso inclui ainda Brian Dennehy como o chefe de campanha Raymond Horgan , Paul Winfield como o juiz Larren Lyttle e Bonnie Bedelia como a resiliente Barbara Sabich, talvez em seu melhor papel nos cinemas, igualando o peso de protagonismo com Ford.
Raul Julia, que interpreta o advogado Sandy Stern, lutou para ser escalado — e acabou sendo a consciência moral que o filme precisava. O roteiro, assinado por Pakula e Frank Pierson a partir do romance de Scott Turow, publicado em 1987, tem algo de xadrez emocional. Cada movimento é reversível, cada depoimento é ambíguo. A cidade anônima onde tudo se passa parece feita de vidro e fumaça, um cenário que John Williams traduz em uma trilha sonora de ressonâncias morais.
Greta Scacchi, em seu papel mais incômodo, disse depois que as cenas de amor com Ford foram “humilhantes”. Há uma ironia nisso, porque essa desconfortável nudez involuntária espelha o tema do filme: a exposição pública da intimidade, o corpo como evidência. Pakula, que já havia filmado o pesadíssimo A Escolha de Sofia (1982), uma história sobre o peso moral da lembrança, constrói aqui uma nova “escolha”: entre o silêncio e a destruição de si mesmo.

Rusty é designado para liderar a investigação, mas logo se torna o principal suspeito. As evidências circunstanciais começam a se acumular contra ele: seu ciúme, suas mentiras para proteger o caso e provas físicas que parecem ligá-lo diretamente à cena do crime. Ele é acusado do assassinato e precisa enfrentar um julgamento onde ontem ele era o acusador, e hoje é o acusado.
Ao mergulhar nos meandros do sistema legal, mostra como é um excelente filme de tribunal, mostrando a preparação da defesa e da acusação, as manobras processuais e a tensão do tribunal. O título é irônico. A trama explora se alguém pode realmente receber um julgamento justo quando a opinião pública e as evidências já o condenam. A presunção de inocência é constantemente testada.
O caso com Carolyn não era apenas um adultério, mas uma relação de obsessão que destrói a vida pessoal e profissional de Rusty, mostrando como o passado pode voltar para assombrar alguém de forma devastadora.
O filme é também uma cápsula do cinema dos anos 1990, uma época em que o adultério era metáfora da América, com filmes como Dormindo com o Inimigo, Um Beijo Para a Morte, Enganada, Pensamentos Mortais, Pulsações Explosivas — todos lançados em 1991 –, Só para Adultos, Obsessão Selvagem (esses dois de 1992), Culpa Formada e Má Fé (ambos de 1993).

Homens e mulheres encenavam o fim da confiança como se fosse um ritual civil. Acima de Qualquer Suspeita está nessa linhagem, mas vai além — o adultério é o crime original, o assassinato apenas o sintoma. E Pakula, mais uma vez, filma o poder e a corrupção com o mesmo olhar de quem filma uma confissão conjugal.
>> alerta de spoiler <<
No livro de Acima de Qualquer Suspeita , a esposa Barbara nunca confessa o assassinato da amante. No filme, ela o faz — e isso muda tudo. O gesto de Pakula é menos uma adaptação e mais uma reescrita moral: a confissão feminina é o fechamento necessário de uma simetria. A mulher que foi traída e silenciada agora detém o poder da palavra final. Barbara veste as roupas da morta, como quem toma o lugar dela no imaginário do marido e, por extensão, na narrativa. É um assassinato que é também uma reencenação de identidade.
Há algo de fascinante na maneira como Acima de Qualquer Suspeita previu seu próprio futuro ficcional: o romance seguinte de Turow, O Ônus da Prova, lançado no mesmo ano do filme, menciona um “julgamento do juiz Sabich”, como se a ficção não conseguisse parar de julgar a si mesma. A arte de Pakula sempre foi sobre isso, sobre o círculo vicioso do olhar: quem observa quem? Em Os Homens do Presidente, era o Estado; em A Escolha de Sofia, era a consciência; aqui, é o casamento.

O legado de Acima de Qualquer Suspeita estendeu-se a uma minissérie de TV em 1992, The Burden of Proof, que adapta o livro O Ônus da Prova, e a uma sequência, Innocent (2011). Curiosamente, o elenco ainda reuniria futuras estrelas do seriado The West Wing, como John Spencer, Bradley Whitford e Jesse Bradford.
No fim, Acima de Qualquer Suspeita não é apenas um thriller jurídico, mas um tratado sobre a erosão da verdade. Um filme em que cada gesto — o beijo, a mentira, o silêncio — tem valor probatório. Pakula, que morreu tragicamente em um acidente em 1998, deixou neste filme talvez sua última arquitetura de espelhos: um sistema onde justiça, desejo e morte são apenas variações da mesma coisa, numa tentativa humana de manter o controle quando tudo já foi perdido.
Acima de Qualquer Suspeita
(Presumed Innocent, 1990, de Alan J. Pakula)

A história criada por Scott Turow no romance de Acima de Qualquer Supeita foi publicada em 1987, quando ele era um jovem advogado de 38 anos, já fazendo sucesso na nova carreira: a primeira edição em capa dura vendeu 1 milhão de exemplares, ficando 44 semanas na lista dos mais vendidos do New York Times. Assim começa o livro: “Sou o promotor. Represento o Estado. Aqui estou para lhes apresentar as provas de um crime. Juntos, vocês vão avaliar essas provas. Vão deliberar a respeito. E decidirão se confirmam a culpa do réu.”
Frank Pierson foi um dos roteiristas do scritp cinematográfico, junto com Turow, e ele também escreveu Um Dia de Cão (1975). Mas Pakula também ajudou no roteiro, mostrando o multitalento do diretor.
Alan J. Pakula (1928–1998), americano do Bronx, um dos nomes fortes da Nova Hollywood, movimento cinematográfico de diretores criativos e disruptivos que remodelaram o mercado nos anos 1970 com seus filmes, foi indicado três vezes ao Oscar.

A primeira por O Sol é Para Todos (1962), por Melhor Filme, mas Lawrence da Arábia, de David Lean, ganhou. Gregory Peck, protagonista do filme de Pakula, ganhou o Oscar de Melhor Ator, e Horton Foote por Melhor Roteiro (ele não estava presente na cerimônia, e quem recebeu o prêmio foi Pakula). Em 1972, Pakula dirigiu Klute, que deu um Oscar de Melhor Atriz para Jane Fonda, que atuou junto com Raul Julia em A Manhã Seguinte (1986).

O segundo foi Todos os Homens do Presidente (1976), por Melhor Diretor, um dos melhores filmes da Nova Hollywood, com nada menos que 8 indicações. Jason Robards ganhou o prêmio de Melhor Ator — superando Ned Beatty, de Rede de Intrigas, igualando o jogo na premiação de Melhor Atriz Coadjuvante, já que Beatrice Straight ganhou em cima de Jane Alexander, pelo mesmo filme. O filme de Pakula ganhou o Oscar de Melhor Direção de Arte, Melhor Som, Melhor Roteiro Adaptado (por William Goldman, que também escreveu Butch Cassidy, de 1969). E perdeu de Melhor Edição para Rocky, Um Lutador, de Sylvester Stallonne.
A terceira indicação foi por A Escolha de Sofia (1982), por um Oscar de Melhor Roteiro Adaptado — mas quem levou foi Costagravas, por Desaparecido. Meryl Streep quem levou uma estatueta para casa por conta do filme de Pakula, o de Melhor Atriz. Os dois últimos filmes do diretor foram O Dossiê Pelicano (1993), com Julia Roberts e Denzel Washington, e Inimigo Íntimo (1997), este novamente com Ford, fazendo dupla com Brad Pitt.
Quem produziu o filme foi Sydney Pollack, cineasta e ator de renome em Hollywood, autor de verdadeiros clássicos como Jeremiah Johnson (1972), Três Dias de Condor (1975), Tootsie (1982), Entre Dois Amores (1985), Havana (1990) — filme com Raul Julia e Robert Redford — A Firma (1993) e Razão e Sensibilidade (1995) — esse como produtor.
A crítica de Acima de Qualquer Suspeita foi generosa e contraditória, como o próprio filme. O crítico americano Roger Ebert achou que o roteiro “mantém o público adivinhando até o fim”. É curioso que um filme tão sobre a forma do invisível. A a culpa que não se prova, o desejo que não se apaga, tenha sido acusado de carecer de atmosfera. Talvez porque sua atmosfera seja o próprio desconforto.
Há pequenas curiosidades nos bastidores: Paul Winfield teria implorado pelo papel após ler o romance, e acabou repetindo no tribunal a mesma frase (“yoa mama”) que dissera em O Exterminador do Futuro (1984). John Spencer, alcoólatra em recuperação, filmou suas cenas totalmente sóbrio pela primeira vez desde 1963. Kevin Costner e Robert Redford recusaram o papel principal.
Raul Julia em
Acima de Qualquer Suspeita

O advogado argentino Sandy Stern é um personagem extraordinário para Raul Julia. Trata-se de um imigrante latino-americano que, devido ao esforço próprio e talento, conseguiu chegar a uma alta posição na advocacia do Condado de Kindle (o lugar fitício do filme e livro onde se dá a história). E ter o porto-riquenho, protagonista de nossa história cinematográfica, é significativo — ainda que ele apareça apenas em metade do longa-metragem. Esse olhar também se deu pelas escolhas de Sandy ser Hector Elizondo em The Burden of Proof e Alfred Molina em Innocent.
Raul Rafael Carlos Julia y Arcelay nasceu em San Juan, cidade de Porto Rico, em 9 de março de 1940. Era o mais novo de quatro irmãos.
O lado artístico veio de sua mãe, Olga, uma cantora mezzo-soprano, e sua gana de trabalho e atuação elétrica provavelmente vieram de seu pai, Raúl Juliá, um engenheiro elétrico (ele também foi pioneiro ao trazer a pizza para Porto Rico, além do frango frito).
A formação escolar de Raul se deu no Colegio San Ignacio de Loyola, de orientação católica-jesuíta. Desde cedo, o pequeno Raul Rafael demonstrava interesse pelas artes dramáticas.
E quando ficou grande — grande mesmo, com 1,87 de altura — se encantou com a performance do ator Orson Bean em uma boate noturna, o que fez tomar a decisão de estudar teatro na Universidade de Porto Rico.
Se mudou para Manhattan (NY), em 1964, e rapidamente encontrou trabalho em peças e shows da Broadway. E fora os seguidos trabalhos nos palcos lhe abriram as portas para o audiovisual gravado.
Seu talento com a voz também foi bem explorado, com ele cantando em 5 de seus filmes. Raul foi nomeado 4 vezes como Melhor Ator em Musical para o prêmio Tony Awards, o maior e mais prestigioso prêmio do teatro dos EUA, equivalente ao Oscar no cinema, Emmy na televisão e Grammy na música. Ganhou em 1972, por Two Gentlemen of Verona; Where’s Charley?, de 1975; pelo seu Macheath em The Threepenny Opera, de 1977; e Nine, de 1982.
Raul Julia adoeceu por conta de complicações de saúde, e ficou internado um tempo em Nova York, EUA. Ele estava lendo o roteiro de A Balada do Pistoleiro, filme de Robert Rodriguez, na cama de hospital, de onde tinha certeza que sairia.
Mas seu estado de saúde piorou. Ficou em coma por vários dias e faleceu no dia 24 de outubro de 1994, aos 54 anos de idade. Raul Julia teve funeral de estado em Porto Rico, onde foi sepultado com todas as honrarias.

Era apoiador ativo de The Hunger Project, uma fundação de combate à fome no mundo. Por 17 anos, Raul Julia serviu de porta-voz da fundação.
Raul era considerado um dos mais bem-sucedidos atores hispânicos nos EUA. Seu maior sucesso no cinema foi O Beijo da Mulher Aranha (1985), de Hector Babenco, onde contracenou com William Hurt (que ganhou o Oscar por sua atuação). No filme, baseado no livro homônimo do argentino Manuel Puig, Julia vive um prisioneiro político latino-americano que divide a cela com um gay, interpretado por Hurt.
Ele foi o único homem que ganhou o Emmy e o Globo de Ouro postumamente, ambos por Amazônia em Chamas, de 1994, um de seus últimos filmes, numa das melhores narrativas cinematográficas sobre o ativista ambiental brasileiro Chico Mendes, que teve um trabalho de enorme importância nos trabalhos dos seringueiros do Acre na Floresta Amazônica.
O Internet Movie Database dá 50 créditos de atuação de Raul Julia como ator em produções de cinema e filmes para a TV.
O imenso legado criativo de Raul Julia no cinema será resenhado numa Maratona Raul Julia, tal qual já fizemos por aqui com a atriz Jennifer Connelly, e traremos todas essas produções para cá.
/ A MARATONA CINEMATOGRÁFICA RAUL JULIA.
1 – Os Viciados (1971)
2 – Been Down So Long It Looks Like Up to Me (1971)
3 – A Organização (1971)
4 – Death Scream (1975)
5 – Uma Corrida de Loucos (1976)
6 – Os Olhos de Laura Mars (1978)
7 – Othello (1979)
8 – Uma Vida em Pecado (1979)
9 – Ripe Strawberries (1980)
10 – O Fundo do Coração (1981)
11 – Strong Medicine (1981)
12 – O Pequeno Mágico (1982)
13 – Tempestade (1982)
14 – O Beijo da Mulher-Aranha (1985)
15 – Posições Comprometedoras (1985)
16 – Mussolini (1985)
17 – La gran fiesta (1986)
18 – Fuga do Inferno (1986)
19 – A Manhã Seguinte (1986)
20 – Álamo – 13 Dias de Glória (1987)
21 – Tango Bar (1987)
22 – Onassis: The Richest Man in the World (1988)
23 – Corações Trocados (1988)
24 – O Penitente (1988)
25 – Luar sobre Parador (1988)
26 – Conspiração Tequila (1988)
27 – Romero (1989)
28 – O Príncipe dos Mendigos (1989)
29 – Acima de Qualquer Suspeita (1990)
30 – Frankenstein, o Monstro das Trevas (1990)
31 – Rookie: Um Profissional do Perigo (1990)
32 – Havana (1990)
33 – A Família Addams (1991)
34 – A Peste (1992)
35 – A Família Addams 2 (1993)
36 – Amazônia em Chamas (1994)
37 – Street Fighter – A Última Batalha (1994)
38 – Torturados (1995)
Obrigado por ler até aqui!
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