MACK THE KNIFE | Bertold Brecht, Menahem Golan e Raul Julia

Em Mack the Knife (1989), ambientado na Londres do século XIX, uma jovem garota se apaixona por um charmoso criminoso, e os dois decidem se casar. A família dela desaprova a união, e seu pai, o “Rei dos Ladrões”, fará de tudo para impedir que isso aconteça. O filme é uma crítica satírica à sociedade burguesa, ao capitalismo e à hipocrisia social, tudo isso embalado por uma trilha musical protagonizada por personagens marginalizados. Tal construção leva a crer que o filme teria nomes de peso envolvidos — afinal, o texto original é de Bertolt Brecht, lenda do teatro alemão —, mas esta versão foi escrita e dirigida por Menahem Golan, metade da dupla responsável pela Cannon Films, a maior produtora de filmes B e trash de ação e aventura da América.

Aqui, Mack the Knife é apresentado como um filme musical de comédia romântica, uma adaptação cinematográfica da célebre Ópera dos Três Vinténs (The Threepenny Opera), escrita por Brecht com música de Kurt Weill, originalmente lançada em 1928. O longa é estrelado por Raul Julia como Macheath (ou Mackie Messer), reprisando o papel que lhe rendeu uma indicação ao Tony — o “Oscar” do teatro americano — na remontagem de Richard Foreman em 1974, na Broadway. O elenco ainda conta com Richard Harris como Sr. Peachum, Julia Migenes como Jenny Diver, Julie Walters como Sra. Peachum, Bill Nighy como “Tiger” Brown e Roger Daltrey (vocalista da lendária banda britânica The Who) como o Cantor de Rua.

Mack The Knife

Na trama, tudo começa quando Polly Peachum (Rachel Robertson) se apaixona pelo famoso criminoso mulherengo Macheath, e ambos decidem se casar. Contudo, com a desaprovação da família, seu pai — o chamado “rei dos ladrões” — ordena a prisão de Macheath. No filme, o Mackie Messer de Raaul Julia aparece com um charme romântico, contrastando com a frieza e o oportunismo da versão original. Polly perde parte de sua força estratégica e adota um tom mais sentimental. Já seus pais, gananciosos e manipuladores, são retratados de forma cômica. O longa prefere uma abordagem leve e acessível ao público geral, em detrimento da crítica social contundente do texto original.

Mack The Knife
Raul Julia em Mack The Knife

Enquanto a peça de Brecht é um marco do teatro político com tom satírico e estética épica, a versão de Menahem Golan suaviza essas características e transforma a obra em um musical visualmente extravagante, voltado mais ao entretenimento do que à provocação crítica. A peça original propunha o distanciamento emocional do público para gerar reflexão sobre temas como hipocrisia burguesa, criminalidade institucionalizada e capitalismo opressor. Já o filme aposta em figurinos coloridos, cenários grandiosos e atuações caricatas, aproximando-se do teatro tradicional e afastando-se da estética brechtiana.

Mesmo mantendo as músicas originais de Kurt Weill, o filme apresenta arranjos mais modernos, com forte influência de jazz e pop dos anos 1980 — como se nota logo na abertura, na interpretação de Mack the Knife por Roger Daltrey.

A peça é marcada pela crítica social, ironia e um estilo musical que mistura ópera, cabaré e jazz. A canção Mack the Knife (Die Moritat von Mackie Messer) se tornou um clássico mundial, com versões gravadas por nomes como Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Bobby Darin, Tom Waits, entre outros.

O Príncipe dos Mendigos
(Mack The Knife, 1989,
de Menahem Golan)

Contudo, o filme de 1989 apresenta sinais de edição caótica — marca registrada das obras de Menahem Golan, não sendo necessariamente um elogio estilístico —, incluindo números musicais que constam na trilha sonora, mas não aparecem na versão final. Ainda que tenha tentado preservar parte da estética teatral, misturando música, drama e sátira política, a execução foi considerada irregular. Apesar do elenco renomado, a produção teve recepção mista a negativa, com críticas à falta de ritmo, ao tom inconsistente e às adaptações feitas em relação ao texto original.

Ainda assim, o desfecho do filme surpreende por seu tom metalinguístico e agradável.

Mack The Knife

Menahem Golan, da Cannon Films

A versão Brecht-Weill do personagem-título era muito mais sombria e cruel, transformada aqui em um moderno anti-herói. Enquanto a peça original influenciou gerações com sua crítica social cortante e estilo revolucionário, Mack the Knife (1989) acabou sendo recebido como uma curiosidade ou obra cult — um produto com visual chamativo, elenco estrelado e alma diluída. Algo que talvez já fosse esperado de um confronto entre Menahem/Cannon e Brecht.

Raul Julia em
Mack The Knife

Mack The Knife

Mack The Knife reúne três atores indicados ao Oscar: Richard Harris — duas vezes por Melhor Ator, em 1964, por O Pranto de Ídolo (perdeu para Sidney Poitier, por Uma Voz nas Sombras), e em 1991, por Terra da Discórdia (perdeu para Jeremy Irons em O Reverso da Fortuna); Julia Walters, por Melhor Atriz, em O Despertar da Rita (quem levou foi Shirley MacLaine, por Laços de Ternura), e em 2001, por Melhor Atriz Coadjuvante, por Billy Elliot (a ganhadora foi Marcia Gay Harden, em Pollock); e Bill Nighy, por Melhor Ator em 2023, no papel principal de Viver (quem ganhou foi Brendan Fraser, por A Baleia).

Raul Julia, dois anos depois do lançamento do filme, interpretaria um de seus papéis mais icônicos como Gomez Addams em A Família Addams (1991) e em sua sequência, A Família Addams 2 (1993) — ambos baseados na clássica série de TV, em que Gomez foi originalmente vivido por John Astin. Curiosamente, Bill Nighy interpretou Samwise Gamgee na versão radiofônica de O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien — e, anos depois, o filho de John Astin, Sean Astin, interpretaria o mesmo personagem nos três filmes dirigidos por Peter Jackson.

Raul Rafael Carlos Julia y Arcelay nasceu em San Juan, cidade de Porto Rico, em 9 de março de 1940. Era o mais novo de quatro irmãos.

O lado artístico veio de sua mãe, Olga, uma cantora mezzo-soprano, e sua gana de trabalho e atuação elétrica provavelmente vieram de seu pai, Raúl Juliá, um engenheiro elétrico (ele também foi pioneiro ao trazer a pizza para Porto Rico, além do frango frito).

A formação escolar de Raul se deu no Colegio San Ignacio de Loyola, de orientação católica-jesuíta. Desde cedo, o pequeno Raul Rafael demonstrava interesse pelas artes dramáticas.

E quando ficou grande — grande mesmo, com 1,87 de altura — se encantou com a performance do ator Orson Bean em uma boate noturna, o que fez tomar a decisão de estudar teatro na Universidade de Porto Rico.

Se mudou para Manhattan (NY), em 1964, e rapidamente encontrou trabalho em peças e shows da Broadway. E fora os seguidos trabalhos nos palcos lhe abriram as portas para o audiovisual gravado.

Seu talento com a voz também foi bem explorado, com ele cantando em 5 de seus filmes. Raul foi nomeado 4 vezes como Melhor Ator em Musical para o prêmio Tony Awards, o maior e mais prestigioso prêmio do teatro dos EUA, equivalente ao Oscar no cinema, Emmy na televisão e Grammy na música. Ganhou em 1972, por Two Gentlemen of Verona; Where’s Charley?, de 1975; pelo seu Macheath em The Threepenny Opera, de 1977; e Nine, de 1982.

Raul Julia adoeceu por conta de complicações de saúde, e ficou internado um tempo em Nova York, EUA. Ele estava lendo o roteiro de A Balada do Pistoleiro, filme de Robert Rodriguez, na cama de hospital, de onde tinha certeza que sairia.

Mas seu estado de saúde piorou. Ficou em coma por vários dias e faleceu no dia 24 de outubro de 1994, aos 54 anos de idade. Raul Julia teve funeral de estado em Porto Rico, onde foi sepultado com todas as honrarias.

Era apoiador ativo de The Hunger Project, uma fundação de combate à fome no mundo. Por 17 anos, Raul Julia serviu de porta-voz da fundação.

Raul era considerado um dos mais bem-sucedidos atores hispânicos nos EUA. Seu maior sucesso no cinema foi O Beijo da Mulher Aranha (1985), de Hector Babenco, onde contracenou com William Hurt (que ganhou o Oscar por sua atuação). No filme, baseado no livro homônimo do argentino Manuel Puig, Julia vive um prisioneiro político latino-americano que divide a cela com um gay, interpretado por Hurt.

Ele foi o único homem que ganhou o Emmy e o Globo de Ouro postumamente, ambos por Amazônia em Chamas, de 1994, um de seus últimos filmes, numa das melhores narrativas cinematográficas sobre o ativista ambiental brasileiro Chico Mendes, que teve um trabalho de enorme importância nos trabalhos dos seringueiros do Acre na Floresta Amazônica.

O Internet Movie Database dá 50 créditos de atuação de Raul Julia como ator em produções de cinema e filmes para a TV.

O imenso legado criativo de Raul Julia no cinema será resenhado numa Maratona Raul Julia, tal qual já fizemos por aqui com a atriz Jennifer Connelly, e traremos todas essas produções para cá.

JENNIFER CONNELLY | Pequena biografia de uma grande atriz

/ A MARATONA CINEMATOGRÁFICA RAUL JULIA.

1 – Os Viciados (1971)
2 – Been Down So Long It Looks Like Up to Me (1971)
3 – A Organização (1971)
4 – Death Scream (1975)
5 – Uma Corrida de Loucos (1976)
6 – Os Olhos de Laura Mars (1978)
7 – Othello (1979)
8 – Uma Vida em Pecado (1979)
9 – Ripe Strawberries (1980)
10 – O Fundo do Coração (1981)
11 – Strong Medicine (1981)
12 – O Pequeno Mágico (1982)
13 – Tempestade (1982)
14 – O Beijo da Mulher-Aranha (1985)
15 – Posições Comprometedoras (1985)
16 – Mussolini (1985)
17 – La gran fiesta (1986)
18 – Fuga do Inferno (1986)
19 – A Manhã Seguinte (1986)
20 – Álamo – 13 Dias de Glória (1987)
21 – Tango Bar (1987)
22 – Onassis: The Richest Man in the World (1988)
23 – Corações Trocados (1988)
24 – O Penitente (1988)
25 – Luar sobre Parador (1988)
26 – Conspiração Tequila (1988)
27 – Romero (1989)
28 – O Príncipe dos Mendigos (1989)
29 – Acima de Qualquer Suspeita (1990)
30 – Frankenstein, o Monstro das Trevas (1990)
31 – Rookie: Um Profissional do Perigo (1990)
32 – Havana (1990)
33 – A Família Addams (1991)
34 – A Peste (1992)
35 – A Família Addams 2 (1993)
36 – Amazônia em Chamas (1994)
37 – Street Fighter – A Última Batalha (1994)
38 – Torturados (1995)

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1 comentário

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